A última despedida

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A matemática está completamente enganada. Nem sempre 1 + 1 acaba em 2. Na verdade, raramente acaba em 2. As vezes é 1 disfarçado de 0, ou de 2. Ou é 1 mesmo, mas não se transforma em 2. Um exemplo óbvio disso somos nós. Quer dizer, eu e você. O amor acaba? Não sei, não posso ter certeza. E agora, que estamos juntos novamente, sinto que o fim está mais próximo do que quando estávamos separados. Não parece certo. Não estamos juntos de verdade. O silêncio fala muito alto e nunca fomos assim. O que antes era carinho e riso, se transformou em acusações, gritos e borrões.

E então você some. Sem deixar rastros, sem despedida. No começo eu fico desesperada, ligando, mandando e-mail, cartas e colocando a tua foto no jornal. Mas depois de alguns dias eu paro de te esperar. Troco a roupa de cama, guardo os presentes que você me deu em uma caixa e mudo os móveis de lugar. Pinto as paredes da cor que eu sempre quis, mas que você nunca gostou. Faço tudo que sempre quis sem você por perto para me impedir.

E quando a sensação de liberdade se esvai e a saudade começa a me corroer por dentro você volta assim como foi, de repente e pronto para me bagunçar novamente. E aí o ciclo se repete… Por algumas semanas tudo corre perfeitamente bem. Nos (re)apaixonamos loucamente um pelo outro, e passamos os dias juntos, sem ter a coragem de nos separarmos por um minuto. Então os dias de sol são substituídos pela tempestade e as brigas retornam. No começo é bem inocente… Eu fico chateada porque você ficou o dia todo sem dar sinal de vida e você me beija. No dia seguinte você sente uma dor de cabeça terrível e não pode ficar comigo, mas é óbvio que pode passar a noite tomando cerveja com os amigos. Você não me liga por falta de tempo, mas tem tempo de sobra para atualizar o facebook e falar com aquela loira peituda por horas. E sempre que eu vou falar alguma coisa você consegue me deixar mal. ‘’Eu vi meus amigos porque minha tia avó morreu e eu estava muito triste, então eles foram me ver.’’ ‘’Fiquei o dia todo sem te ver porque aquela minha alergia maluca atacou, amor… E eu conversei com a loira peituda porque ela é a minha amiga lésbica… Ainda quer que eu vá a merda?’’ ‘’Eu sempre confio em você, independente de qualquer coisa… se eu ver o sinal vermelho e você disser que está verde, eu acelero e vou em frente, então por que diabos você não confia em mim?’’ E eu calo a boca, como se eu que tivesse pisado na bola. E não tenho coragem de suspeitar das suas desculpas, porque você me faz sentir culpada, a namorada psicótica. E aí você some novamente. Dizem que o amor não deveria machucar. E percebo que o nosso ‘’Que seja doce’’ já está amargo. Mas muito doce enjoa, não é? Não sei… E quando o amor machuca? Continua sendo amor? Mesmo te machucando o tempo todo? Também não sei. Mas tenho a incerta certeza de que te amo. Mas não sei muito bem.

Talvez a minha necessidade de você não seja muito saudável. Mas eis o problema: Eu não quero precisar de você. Não quero precisar de ninguém. Não quero me sentir culpada por sentir olhares na rua e gostar disso. Não quero ter que me desfazer de todos os amigos que gostam de mim além da amizade. Sempre tive amigos que queriam ter algo comigo, e nunca me desfiz deles. Sempre fui acostumada a me sentir desejada e querida, mas nunca me senti culpada por tal coisa.

Sabe o mais triste de tudo? Eu perdi a admiração por você. Até o respeito. Dizem que isso acontece quando a pessoa só te traz decepções. Talvez seja isso. Mas… Você se acha tão especial, tão superior, não é? E você não é. Suas fotos me enjoam. Suas histórias me dão sono. Seus amigos me dão nojo. Não aguento mais sentir vergonha alheia pelas coisas que você compartilha nas redes sociais. Mas, ainda assim, não consigo me desfazer de você. Mesmo com tudo isso, ainda te amo. Sei que dizendo assim parece meio louco, mas é verdade. Eu te amo, só não gosto mais de você. Eu te amo, só não estou mais apaixonada por você.

E me dói saber que, se me desfizer de você, vai ser para valer dessa vez. Se eu realmente fizer isso, tudo vai acabar. Você vai ficar triste por um tempo, mas depois vai ficar feliz de novo. E eu não vou estar do seu lado. Não vou ser quem você vai procurar para desabafar. Ou chorar. E isso causa uma sensação desconfortável no estomago. E, para ser sincera, dá um preguiça também. Você é quem conhece todos os meus segredos sombrios. Todas as partes escondidas de mim. É muita coisa que foi construída com o tempo, e dá uma preguiça de ter que construir isso de novo com outra pessoa. Principalmente sabendo que a outra pessoa pode fugir.

Mas nunca fui acomodada. Não vou ser agora. Então vai. Mas vai de verdade. Agora você não pode voltar. Vai sem olhar para trás. Só… vai.

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2 comentários sobre “A última despedida

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