O vestido vermelho

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Melhor.  Ele disse que queria o meu melhor. Eu tentava achar sentido no meio das palavras desconexas, e falhei. Meu trabalho era descarregar objetos e só. Talvez, o fato de ser mulher e trabalhar nesse meio de força física e pensamentos machistas, fosse a minha falha em si. Nunca usei roupas vulgares, maquiagem pesada – na verdade, nunca fui maquiada para o trabalho! – nem perturbei meus colegas de trabalho com dramas femininos insignificantes. Minha rotina era: Acordar de manhã, preparar a mesa, comer, entrar, fazer meu trabalho, sair e estudar. Todos os dias. Sim, sei que alguns homens do trabalho se irritavam comigo, e eu sabia o porquê. Eles podiam dizer que eu não fazia o trabalho direito, que eu sempre deixava todo mundo maluco ou até que não conseguia suportar o peso… Mas não adiantava, eu sabia o real motivo. Eles se irritavam porque eu sou uma mulher. Porque os grandes chefões me tratavam como ‘’exemplo’’, se irritavam porque eu nunca erguia a voz ou reclamava.  E isso eu entendia.  O que eu não entendi, foi quando me deparei em uma sala vazia, fechada, com o ar condicionado pifado, bufando de calor, aguardando a minha demissão.

Mas eu não podia perder o meu emprego. Vamos aos fatos: Era uma mulher, com os filhos morando longe, porque o Estado alegava que eu não tinha condições de criar meus próprios filhos, sem ensino superior, sem família, sem marido, sem nada. Tudo o que eu tinha era aquele emprego e o meu estudo a distância, que era fraco, mas que pelo menos eu esperava, que fosse me levar à algum lugar bom. E me vendo ali, naquela situação, me senti mais perdida do que nunca. Mas não foi sempre assim. Eu tive lá meus anos dourados, sabe? Era a mais bem vestida, a mais clicada, a mais invejada, e, sinceramente, aquilo nunca significou nada para mim, mas quem não gostaria de ter uma vida assim? Sei que eu gostava muito. E então tudo perdeu o brilho, quer dizer, eu perdi o brilho. Mas a vida sempre acaba acordando a gente, do passado, do futuro ou de nós mesmos. A vida me acordou quando um homem de 1.70 de altura, com um bigode ralo, entrou na sala, sem me olhar nos olhos.

– Então Nair… Parece que a situação é muito mais complicada do que achávamos.

– Qual é a situação, senhor? – É horrível quando estamos falando com alguém e essa pessoa não nos olha, sabia? Eu trabalhava há seis meses na mesma empresa, e o meu chefe, Jefferson, havia me olhado umas três vezes, no máximo. Incluindo a vez em que ele teve que olhar para mim, na entrevista de emprego. Nós, funcionários, nunca falávamos com ele e nem ele conosco. E quando falava, eram só notícias ruins, então eu não podia dizer que o conhecia, mas não pude deixar de notar que ele parecia engasgado, como se precisasse dizer algo mas não conseguisse.

– Nós sabemos que você roubou o colar de esmeralda da mulher de um de nossos administradores principais.

Eu tive vontade de rir. Eles não sabiam de nada, não sabiam com quem estavam falando, não sabiam quem eu era, quem eu fui, não sabiam quantos colares de esmeralda eu tive. E depois vontade de chorar. Eles não sabiam porque não tinha nada para saber. Eu não era mais nada daquilo, não tinha nada. Só não podia perder meu emprego, porque eu realmente não havia roubado nada! Mas eu sabia quem poderia me ajudar.

– Senhor, gostaria de conversar com o Marcos.

– Olha só, vou abrir o jogo para você. Sei que prefere o Marcos à mim, sei que se dá bem com ele, mas você deve saber que a queixa vem dele. Ele disse que você roubou o colar de esmeralda que ele deu para a sua mulher no último fim de semana.

Agora sim eu tinha um motivo para chorar. Desde que tinha chegado na empresa, Marcos foi gentil comigo, ele que me mostrou o lugar, que me apresentou as pessoas certas, que me contou da faculdade a distância. E, devo admitir, nós tínhamos passado da relação chefe-empregado. Éramos parceiros, amigos, amantes. E agora isso? Eu precisava falar com ele.

– Tudo bem senhor, eu entendo a situação. Mas realmente gostaria de falar com ele.

– Vou chamá-lo. – Com toda a má vontade do mundo, ele pegou o telefone, e ligou para a sala do Marcos, o chamando para comparecer a nossa reunião, em meio aos resmungos. Contei dez minutos no relógio desde a ligação, até o momento em que Marcos apareceu na porta, eficiente como sempre.

– Bom, então é isso… Vou indo. Quando vocês terminarem aqui me avise. Resolvam essa merda antes que a empresa seja prejudicada.

Era realmente constrangedor olhar para um homem que você costumava dividir a cama e ter vontade de pular em cima dele e lhe render belas feridas. No que ele estava pensando? Aliás, no que ele não estava pensando? A culpa estava no seu olhar.

– O que está acontecendo?

Nada.

– Você pode falar comigo?

– Ela sabe, tá? Feliz, agora?

– Ela sabe do que?

– Ela sabe que eu estou tendo um caso. E eu só achei que com você fora daqui as coisas se resolveriam. Droga! Eu prometi a ela que iria resolver isso!

– Ah, tudo bem, vamos conversar como adultos. Você realmente planeja resolver tudo me acusando de um crime que eu nem cometi?

– O colar era para você. Mas Nair, entenda o seguinte, eu estou sem saída. O que você quer que eu faça? Eu já disse ao Jefferson que você roubou, não posso desmentir.

– E eu?

– Olha só… Eu quero ficar com você. A gente pode fugir, tá bom? Eu sei que você sempre tratou desse assunto com muita discrição, e nunca esperou nada de mim, mas eu me apeguei. Não quero ficar com a minha mulher, não quero ficar nessa empresa e ver você ser maltratada e difamada pelas costas. Você pensa que é a única ferrada desse relacionamento, mas não é.

– E quanto aos meus filhos? Eu só estou aqui por causa deles.

– Nós iremos pegá-los de volta. Não se preocupe. E sabe, as vezes acho que foi tudo planejado para nós dois.

– Por que?

– Eu sempre quis crianças, e a Mariana nunca pôde me dar.

– Ah, Marcos! Eu sinto muito. Mas vai ficar tudo bem, vai sim. Como iremos fugir?

– Eu cuido de tudo. Só saia daqui e vá para a sua casa.

O tempo se passava e os minutos já pareciam durar uma eternidade. Eu não só tinha ido para casa como tinha feito a mala, arrumado a casa, tomado banho, e me aprontado. E nada de Marcos. Tic. Toc. Eu tinha um sentimento bom sobre isso. Eu nunca o amei, mas ele era um homem e tanto, tinha uma boa carreira, um bom sorriso, um corpo ótimo e era o cara mais inteligente com quem já conversei. Tudo ia acabar bem. Eu estava com o meu vestido da sorte, ele era vermelho, minha cor favorita, minha cor da sorte. As coisas iriam dar certo, como eu esperava e planejava ha anos. Meus pensamentos se dissiparam quando a campainha tocou, coloquei a mala nas costas e fui em frente. Abri a porta.

– Olha só, que conveniente, ela até já veio com mala!

– Cala a boca. A senhora está presa, jogue a mala no chão e mantenha as mãos aonde eu possa vê-las.

Ele iria gostar do vestido, se o tivesse visto.

Oi, gente. Eu sei que não é o tipo de texto que vocês estão acostumados a ver aqui, tanto pelo tema quanto pelo tamanho. Mas eu realmente espero que vocês gostem. É um dos contos que eu mais gostei de escrever. E se você está lendo isso aqui, parabéns! Você leu até o fim! Então agora seja mais adorável ainda e me diz o que você achou, pode ser? <3 

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